Gramsci e o Atlântico grande e terrível: recepção, tradução e tradutibilidade da filosofia da práxis na África do Sul, Argentina, Brasil e México
Investiga as primeiras traduções e recepções dos Cadernos do Cárcere de Gramsci no Atlântico, analisando escolhas editoriais, circulação e efeitos políticos.
Antonio Gramsci, pensador italiano, nascido na Sardenha em 1891, é um dos principais intelectuais do século XX. Sua existência, marcada pela militância comunista e pela perseguição fascistas, atravessa sua obra. Às vezes por razões didáticas, às vezes por razões ideológicas, divide-se sua obra entre o período carcerário, quando esteve preso pelo regime fascista de Mussolini (1926-1937), e o período pré-carcerário. A ênfase deste projeto de pesquisa repousa sobre o período carcerário, o que inclui tanto os chamados Cadernos quanto, em menor medida, as Cartas. Dada a característica in fieri dos escritos, particularmente dos Cadernos, a sua interpretação requer cuidados específicos. Tanto porque a forma de escrita adotada por Gramsci é definida por camadas difíceis de identificar quanto pelo próprio caráter dos Cadernos. Sabe-se, por exemplo, que Gramsci escreveu em diferentes cadernos ao mesmo tempo. Ou seja, a ordem numérica dos cadernos não corresponde cronologicamente à ordem em que o texto foi escrito. É também de conhecimento público que os Cadernos deveriam constituir um plano de escrita para desenvolvimento posterior. Ao reconhecer que a cronologia não é explícita, diante de uma reconstituição da temporalidade de escrita dos Cadernos talvez seja possível estabelecer novos nexos interpretativos à obra gramsciana. Ou, ainda, à luz desse reconhecimento podem ser feitos reparos na forma com que os cadernos foram editados. Esse exercício está em curso com a Edição Nacional dos Cadernos do Cárcere na Itália. Na esteira desse esforço coletivo de estruturar melhores condições editoriais para leitura do texto gramsciano, o objeto central deste projeto está situado nas primeiras traduções dos Cadernos. Realizadas a partir da edição temática dos Cadernos organizada por Felice Platone e Palmiro Togliatti, as primeiras versões em cada um dos idiomas (espanhol, português e inglês) resultaram de seleções de textos diferentes. Além disso, a edição temática dos Cadernos promoveu aspectos específicos da obra gramsciana em detrimento de outros; com o foco de popularizar o pensador e militante sardo, o texto foi editado de modo a ter uma aparência mais amigável, para ficar em um exemplo. As intervenções no texto não se findaram aí: recortes, reposicionamentos de parágrafos e tentativas de promover coesão textual onde, deliberadamente, não havia tal intenção. Qual o significado desse tipo de escolha? Há implicações políticas? De que natureza: ideológica, teórica? Como tais textos condicionaram interpretações específicas da obra gramsciana? Em algum lugar determinados conceitos foram mais amplamente difundidos que em outros? Dada a influência recente que o pensamento gramsciano tem exercido tanto para a crítica de um certo marxismo vulgar quanto para ajudar a sustentar reflexões de intelectuais pós-coloniais e decoloniais, África do Sul, Argentina, Brasil, Itália e México compõem o escopo inicial de investigação sobre o primeiro impacto da recepção de Gramsci no Atlântico.