A diplomacia cultural nos escritórios locais da USIA – Bahia (1955–1976)

Analisa a atuação da USIA/USIS em Salvador e na Bahia, destacando diplomacia cultural, circulação de ideias, mediação de intelectuais e vínculos com a política externa dos EUA.


Para compreender como circularam ideias e interpretações sobre a subversão e a atuação de agentes culturais em Salvador, observamos como as agências de intercâmbio direto dos Estados Unidos e Brasil funcionavam no consulado de Salvador e em escritório próprio do USIS – United States Information Agency, no centro da cidade, além de um posto na Universidade Federal da Bahia. A Universidade Federal e outros acadêmicos se tornaram mediadores em Salvador e no interior do estado, articulando projetos da política externa dos Estados Unidos para a América Latina e para o Brasil, em âmbito regional. Selecionamos documentos do NARA – National Arquives (EUA), para demonstrar aproximações com intelectuais que foram tratados como parceiros em Salvador e na Bahia, na conjuntura do golpe civil-militar no Brasil, em 1964 e alguns desdobramentos. Os documentos de arquivo conhecidos como Grupo R-59 (além de outros), do Arquivo Nacional dos Estados Unidos, oferecem possibilidades para estudos das relações entre acadêmicos, estudantes, professores, agentes de embaixadas e adidos culturais, que atuaram como operadores diretos da diplomacia de governo nos mais diversos escritórios da América Latina e, neste caso, do Brasil. Homens e mulheres que, dentro e fora do Brasil, tiveram seu campo de atuação, como intelectuais, limitados ou facilitados pela crescente hostilidade provocada no contexto da Guerra Fria contra movimentos sociais organizados e perseguições políticas, além de um novo fluxo de trabalho e de demandas como escritores, cientistas e mobilizadores da cultura no contexto. Se a Guerra Fria se dirigia cada vez mais para a difusão da cultura, foi crescente o interesse em fortalecimento da Diplomacia Cultural, promovida por intermédio de atos de governo e de ações de sujeitos como os intelectuais que ficaram, cada vez mais sob os holofotes da atuação dos Estados Unidos em solo brasileiro. As ideias adotadas por esses acadêmicos faziam parte da esfera política e da argumentação liberal-democrática do “mundo livre”, sustentada pelos Estados Unidos e seus parceiros na América Latina, que pode ser também vista como capitalista e americanista. É fundamental perceber a construção das correspondências entre o Consulado e os agentes no estado da Bahia a partir de movimentos que se alardearam como filantrópicos ou como negociações de posturas de governo, eram ampliadas para atos de uma diplomacia privada e da construção da pequena política pela via das negociações dos interesses de empresários e de agentes do consulado, que agiam como mediadores de expectativas do capital privado dos Estados Unidos na região. Podemos ver ainda, a partir das mesmas fontes, a construção da recepção dos grandes acordos elaborados na conjuntura, como a Aliança para o Progresso, a Agência Interamericana de Desenvolvimento, os atos do Peace Corps. Essa ação pode ser vista nas reuniões ocorridas entre o consulado e seus adidos culturais, na cidade de Salvador e em todo o estado da Bahia, especialmente em áreas do “interior”, por onde perpassavam debates sobre noções de desenvolvimento e de divulgação da política externa dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, os intelectuais agiam juntamente com uma perspectiva de defesa da sua atuação, convivendo com a difusão da perspectiva americanista para as ações culturais na região e angariando fundos para seu trabalho e profissão, atuando de modo corporativo. Além disso, como agentes que produzem e interferem nas disputas por instrumentos de produção de hegemonia, escritores, professores acadêmicos, estudantes, artistas e outros sujeitos mediaram os atos por via  da cultura e da ciência na Universidade Federal da Bahia e fora dela.

Subprojeto cadastrado em 2025.