“A CLASSE TRABALHADORA É MAJORITARIAMENTE NEGRA”: O PCB E A QUESTÃO RACIAL (2009-2021)

Investiga como o PCB tratou a questão racial entre 2009 e 2021, relacionando resoluções partidárias, estratégia socialista e disputas internas.


Este projeto de pesquisa retoma e aprofunda o percurso iniciado no Trabalho de Conclusão de Curso, que investigou as resoluções congressuais do Partido Comunista Brasileiro (PCB) voltadas à questão racial entre 2009 e 2021. O interesse pelo tema surgiu da constatação de que, embora a questão racial seja central na sociedade brasileira e nos debates da esquerda, sua incorporação na prática política do PCB ainda é pouco explorada. Assim, a pesquisa busca compreender como o partido concebeu a realidade social da população negra em sua prática política, como articulou a dimensão racial em suas resoluções programáticas e de que forma essa articulação se relaciona com as mudanças em sua estratégia revolucionária. O período entre 2009 e 2021 foi escolhido por apresentar elementos decisivos na trajetória recente do PCB. A partir de 2009, o partido já havia consolidado sua linha política após as reorganizações dos anos 1990, marcando o início de um período denominado “reconstrução revolucionária”. Nesse contexto, suas resoluções passam a tratar a questão racial de maneira mais explícita, acompanhando mudanças significativas no cenário político nacional, como o fortalecimento do movimento negro, as mobilizações sociais a partir das Jornadas de Junho de 2013, a ascensão do fascismo e a emergência de novas pautas feministas e antirracistas. A análise inicial revelou que o PCB, nos primeiros documentos do período, abordava o racismo principalmente como consequência da exploração capitalista e da herança colonial, subordinando-o à consciência de classe. No entanto, as resoluções mais recentes indicam um deslocamento teórico e político: a questão racial passa a ser reconhecida como elemento estrutural da sociedade brasileira e parte constitutiva da luta de classes. Esse avanço é resultado de disputas internas e do fortalecimento de coletivos como o Coletivo Negro Minervino de Oliveira, que tensionaram o partido a integrar plenamente raça, classe e gênero em sua estratégia revolucionária. Dessa forma, o estudo se propõe a investigar como as disputas ideológicas internas do PCB moldaram a formulação de suas resoluções sobre a questão racial e como essa incorporação se traduz em práticas organizativas. A pesquisa parte da hipótese de que o partido tem buscado articular a luta antirracista à sua estratégia socialista, ainda que de forma tensionada, com oscilações e contradições próprias da tradição marxista-leninista brasileira. Compreender essas trajetórias permite não apenas mapear a evolução do PCB frente à questão racial, mas também refletir sobre as possibilidades e limites de uma estratégia comunista radicalmente antirracista e antipatriarcal no contexto brasileiro.